MAUS TRATOS AOS ANIMAIS


MAUS TRATOS AOS ANIMAIS-qualquer cidadão pode fazer a denuncia: CRMV- Unidade Regional do Sul de Minas Gerais. Delegado Dr. Marden. 35/ 3221-5673. Horário: 8 ao meio dia, 13 até 17 h. E-mail: crmvmg.suldeminas@crmvmg.gov.br

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Cachoeira de Minas




Em Cachoeira de Minas 

Eu havia sido promovida. Trabalharia na Agência de Correios de Cachoeira de Minas como gerente. Estava apreensiva, porém motivada. Eu ficaria um mês aprendendo tudo com a pessoa que estava lá, que me permito, como anteriormente, não citar o nome. Em todas as memórias nenhum nome será citado, acho melhor assim, sem comprometimento.
Chegando lá percebi que não seria difícil, o dia a dia me daria à experiência necessária, após as orientações preliminares que assimilei durante o mês.
Cachoeira de Minas é uma cidade pequena no interior de Minas Gerais. A Agência de Correios contava comigo e um carteiro, porém seria implantado um projeto social onde eu selecionaria dois menores carentes, para trabalhar na entrega de correspondência, por quatro horas diárias, aumentando dessa forma para três, o número de carteiros. Na verdade eu seria a atendente comercial, função que foi meu propósito desde que fiz a prova em BH e também tomaria conta de toda a organização do serviço. Era uma grande responsabilidade!
 Tudo estava se normalizando, apesar de eu ter que me deslocar todos os dias de Pouso Alegre para trabalhar. Mal sabia eu, que estava entrando para um regime que ao final de sete anos me colocaria num impasse, sair da empresa ou correr o risco de um problema grave de saúde devido ao estresse. Mas isso eu conto posteriormente.
A população de Cachoeira de Minas me recebeu muito bem! Jamais vou esquecer-me daquele povo aconchegante, na maioria moradores das áreas rurais, pois nessa época os pedidos de aposentadorias do INSS eram feitos nos Correios, nas cidades onde não existia posto do INSS.
Trabalhadores rurais, que passaram anos provendo seu próprio sustento, vinham até a agência e eu os orientava, montava os processos e remetia a Pouso Alegre. Em alguns meses eles eram aposentados. Nossa! Eu era tratada muito bem por isso. Achavam que eu era responsável pela conquista e nada que eu dissesse, na questão de terem eles próprio feito por merecer durante a vida, nada disso tirava aquele olhar de gratidão. Nunca me esqueci disso.  Muitas vezes eu era surpreendida com algum presente tipo, “uma leitoa”, “um frango vivo” ou simplesmente alguma sacola de frutas trazidas de suas plantações. Quando recebi o frango vivo confesso que fiquei perdida. Criada na cidade e acostumada a comprar em supermercados, um frango vivo era bem capaz de virar meu animalzinho de estimação, eu jamais mataria. Porém ele escapou da caixa e causou um transtorno na agência, corria entre as encomendas, sujando os lugares por ande passava. Era um quadro surreal para quem entrava para postar alguma carta: eu e os meninos que trabalhavam na entrega correndo atrás do frango para tentar acalmar o bicho. Depois de preso uma alma boa, compadecida pelo transtorno, se ofereceu para matar e limpar o coitado, para que eu pudesse levar para casa. Nem quis me despedir do animal!
Fiz grandes amizades na cidade, uma menina em particular ia periodicamente conversar comigo e acabei conhecendo a família toda. Ela acabou me apelidando de “mãe torta” e temos contato até hoje. Aprendi que as coisas boas superavam as ruins, porém eu era muito jovem ainda para conseguir vencer a pressão que começaria a se instalar no meu dia a dia. O lema da EBCT era “ir pressionando de cima para baixo”, porém os de baixo eram sempre os mais atingidos. Se algo não ia bem você era questionado, avaliado, supervisionado, passava por fiscalização. Lá reuniões são feitas todos os dias a fim de aumentar as vendas e a pauta é “venda, venda, insista e venda ou a casa vai cair para você”. A gente acostuma, porém o estresse vai se acumulando e um dia você explode ou implode.
Um dia eu estava do lado de dentro do balcão, quando um morador chegou e pediu “passe a grana”. Ele era conhecido pelo alcoolismo, porém de família conhecida, sem jamais ter passado pela polícia. Quando percebeu que eu não ia abrir a gaveta tirou uma faca do bolso. Imediatamente eu peguei o telefone e disquei 190. Falei com o policial com ele ali, me olhando e confesso que meu coração estava quase fora da boca. Porém arrisquei, pois jamais soube que fosse um bandido. Ele saiu correndo e depois fiquei sabendo que foi repreendido e que a família tinha internado ele em outra cidade. Olha! A partir daquele dia eu comecei a planejar minha transferência. Conheci um lado do trabalho interno que jamais havia imaginado existir, o pavor de um assalto.
Mas continuei firme no meu propósito e consegui desenvolver um bom trabalho na cidade durante dois anos.
Cachoeira de Minas foi o início de tudo no meu conhecimento profissional. Como eu já havia trabalhado na entrega pude ser uma boa “dona chefa” para os meninos e sempre me colocava em seus lugares. O bom de saber todo o serviço é que temos consciência das dificuldades dele.
Acho que gostaram de conviver comigo lá, pois quando saí foi a maior choradeira, no bom sentido, é claro.
Vamos recapitular: Entrei para a EBCT como atendente comercial, porém entregava cartas; fui promovida a carteiro, porém transferida para a função de gerente noutra cidade; agora reclassificavam-me na carteira profissional como ATENDENTE COMERCIAL. Bravo! Era isso que eu queria desde o início, porém ainda tinha a meta de voltar para Pouso Alegre. Claro, se me contassem o que viria a seguir eu não acreditaria:
A agência de Conceição dos Ouros estava acumulando a entrega, o carteiro estava sobrecarregado e precisavam urgente de alguém na entrega. Um chefe, não sei se por despreparo ou implicância, sério, cheguei a pensar que fosse pessoal, mandou  o rapaz de Conceição dos Ouros trabalhar uns dias em Cachoeira de Minas no meu lugar e, pasmem, mandou que EU fosse fazer as entregas acumuladas de sua cidade. O que vocês pensariam? Tirar um homem acostumado com o serviço pesado das ruas, um homem que apesar de estar acostumado, não estava dando conta do trabalho e, mandar para o meu lugar e, EU, uma mulher que nunca deu conta da entrega em Pouso Alegre, para trabalhar em seu lugar. Eu só podia deduzir que fosse pessoal! De uma a duas, ele queria me prejudicar ou queria prejudicar a agência da outra cidade. Lembro que comentei isso com alguém que disse: “ora, vai ver é burrinho”. Claro que não! Isso é ilógico!
Eu estava esgotada! Tudo ia começar de novo, o cansaço, a humilhação nas ruas...Era como no início, eu era Atendente Comercial na carteira, porém iria voltar a trabalhar nas ruas. Eu tinha que tomar alguma providencia. E foi o que fiz! Dizem que até “Amélia que era mulher de verdade” um dia deu seu grito, a Princesa Isabel acabara com a escravidão, Dom Pedro deu o famoso “Grito do Ipiranga”, por que cargas d’água eu, uma trabalhadora do governo, uma mulher que reivindica igualdade salarial e direitos com os homens,  porque ficar quieta? Não! Eu tinha que dar um basta! Eu sempre admirei a EBCT. Aprendi a “duras penas” que a EBCT era a gente que fazia! A empresa não tinha compactuado com aquela atitude déspota e ignorante. Era inadmissível que isso estivesse acontecendo.
Liguei para o tal chefe e tentei esclarecer o porquê de tal atitude. Foi perda de tempo. Nem quis me ouvir, deixando claro que ele mandava e eu obedecia.
Lembro que tive uma longa conversa com a moça que estava tomando conta da agência de Conceição dos Ouros, expliquei o que estava acontecendo. Tomei uma atitude e fui compreendida por ela. Eu escrevi uma longa carta contando tudo desde o início, coloquei os “pingos nos is”, não omiti nenhum detalhe sórdido, o preconceito sofrido, abuso de autoridade, descaso quanto ao meu treinamento nas agências etc... Fiz cópias e enviei uma para o tal chefe, as outras para a Regional em Pouso Alegre, outra para Belo Horizonte e a última para o Ministro das Comunicações em Brasília.
Peguei as cartas mais importantes, ou seja, Registrados e Encomendas de Sedex e saí para a entrega, pois não queria prejudicar a agência. Porém as cartas simples que estavam amontoadas nas prateleiras, essas continuaram lá.
Nos dias que se  seguiram o tal chefe me ligou. Queria saber se eu tinha enviado as cópias. Era tarde! Tentou esbravejar, porém eu desliguei. Ele novamente me ligou e dessa vez baixou o tom de voz. Não havia o que fazer, deixei claro, já havia enviado as cartas. Quando ele me fez a fatídica pergunta eu fiquei pasma: Quando enviou? Sairam daí que dia e que hora? Eu sabia! Ora, era tarde, por mais que ele tivesse acesso, era tarde, as cartas já estavam em seu destino.
Menos de um mês depois eu  consegui a tão almejada transferência. Não era ainda o que esperava, voltar para Pouso Alegre, porém para uma cidade também perto, Santa Rita do Sapucaí. Lá eu iria conhecer uma turma muito legal e ia adquirir mais experiência para o meu currículo. Porém eu estava em estado de alerta. Sabia que minha atitude teria conseqüências. A poeira iria baixar e então... Eu tremia até de pensar. Mas tudo bem, eu tinha entrado nessa luta por uma boa causa: RESPEITO. E eu iria até o fim. Não tinha mais medo!
Eu havia conhecido o tal lema “ir pressionando de cima para baixo”. Soube que após a fiscalização na minha agência ficou constatado que eu não cobrava uma taxa importante nas encomendas de reembolso postal. Porém não havia aprendido a calcular e tampouco sabia da existência de tal taxa. Como calcular algo que nem conhecia? Os resultados foram de cima para baixo, gerente regional comendo diretor, que comia chefe, que comeu o responsável pela minha região, que por fim, decidiu se vingar em quem? Euzinha, é claro! Vamos colocar essa moça na entrega para ver se aprende a não dar trabalho! É, esse era o lema...
E muito ainda estava por vir!

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